quinta-feira, 19 de abril de 2012



Empolgada com a cena brasileira, Lucy resolveu entender um pouco melhor os acontecimentos recentes da terra que a acolhera de maneira tão hospitaleira. Mesmo sabendo que um profundo entendimento não poderia ser adquirido sem acaloradas polêmicas, decidiu não esperar acontecer um surgimento espontâneo da compreensão, preferindo um debate qualificado, rotina com a qual pretendia familiarizar-se.

O CIL – Comitê para a Integração de Lucy – colocou à disposição entendidos em APSCP – Assuntos Polêmicos Sem Coloração Partidária – e organizou um mega-evento com cobertura televisiva, tudo para valorizar a troca de idéias. O fato de o BBB ter sido preterido, de alguma forma, empanou o brilho da iniciativa, sem, todavia comprometê-la. De plano, Lucy rejeitou apresentações em Power Point, alegando que nem com a técnica das gravuras rupestres estava familiarizada por causa de uma janela de três milhões de anos. Manifestou uma clara preferência pelo método socrático das perguntas e respostas, no que foi atendida, apesar de os organizadores dos debates não terem certeza a qual Sócrates Lucy se referira: o filósofo, o futebolista ou a ministro português.

Providenciou-se uma mesa irregular – quase redonda, cujo tampo de granito sem polimento algum deixaria Lucy, bastante incomodada com a luz dos refletores, à vontade. Naquelas condições, tornava-se fácil determinar o valor de Pi. (algo como 4) O leiaute foi fruto de grandes discussões, das quais emergiu a luz, como reza o ditado. 

Lucy foi colocada entre dois membros da APSCP, sendo que um deles ficou à sua esquerda, ficando ao cargo do leitor paciente deduzir a posição do segundo. Antes mesmo do início do debate, Lucy jurou a si mesma – e juramento de fóssil vale muito – que se, de acordo com Baltasar Gracián, as flechas trespassam o corpo e asa palavras, a alma, ela optaria por uma postura, sem jamais perder a ternura.

O moderador do debate ficou sentado numa cadeirinha de árbitro de tênis, de onde determinava a quem caberia falar. Entre as diversas falas, haveria, de acordo com os organizadores, inserções de comerciais. Ficou combinado que a mesma pessoa não poderia formular uma pergunta e, a seguir respondê-la, sem a ‘rebatida’ do campo adverso. Portanto, nada de dois toques.

Para não fatigar o paciente leitor acima mencionado, e por medida de economia de espaço, será omitida a apresentação dos integrantes do trio. Eis que o moderador fez soar seu apito, sinal combinado para que o fóssil formulasse a pergunta que ultimamente lhe tirara o sono, causando sérias preocupações ao CIL.
“Cavalheiros, que negócio é esse de privatização?” – foi a pergunta formulada inocentemente. Não se poderia exigir mais sutileza de um ser vergando sob o peso de milhões de anos.

– A privatização é uma forma de colocar nos ombros da iniciativa privada um peso que o Estado não consegue carregar de maneira eficaz – respondeu um dos assessores.
– A privatização é um assalto ao patrimônio do povo – foi a resposta do outro, leitor assíduo de Schopenhauer e de “Arte de ter sempre razão”.

Os olhares de Lucy acompanhavam o jorro oratório, sem haver necessidade de mexer a cabeça, esforço que poderia lhe trazer graves danos à coluna, de acordo com o Dr.S.Z – especialista em problemas da coluna. Ao moderador cabia a responsabilidade de evitar que houvesse duas respostas da parte de mesmo debatedor. No regulamento do debate isso significaria haver dois toques, falta que acarretaria a imediata cassação temporária da palavra.

– Gostaria de ouvir mais a respeito. Por sinal, prefiro a troca de idéias à troca de palavras de ordem. E, por favor, não me venham com NAIRU, PIB potencial e outros conceitos com os quais ainda não estou familiarizada. 
– Companheira Lucy, veja o caso da Telebrás, que foi vendida a preço de banana...
– ... de banana?

– Isso não é verdade. Em primeiro lugar não foi vendida a Telebrás, apenas ações que deram aos adquirentes o controle acionário, tanto é que até hoje existem ações da Telebrás no mercado. E todos sabem que o número de telefones aumentou, que não há mais mercado negro...
– O que é mercado negro? Isso não é uma maneira preconceituosa de se expressar? – quis saber Lucy.
– Isso mesmo, companheira! Nem mencionarei os escândalos detalhados num livro de grande sucesso. Todos sabem que havia dedo do Serra nisso!

– Até hoje, apesar de todos os esforços, nada foi provado! Com tantos anos de poder, não se provou nada. Isso não é estranho?

– Que tal um outro exemplo – pediu Lucy. Falam muito do caso daquela mineradora, da Vale... Lá também houve o dedo daquele senhor?
– Companheira, sempre houve, se não era o dedo dele, era da filha, do cunhado, do primo, do barbeiro dele; breve iremos demonstrar que ele era especialista em inserção digital... Mas voltando à sua indagação, o patrimônio do povo foi vendido a preço de bana... a preço vil.

– Deixe-me ver se eu entendi. A Vale vendia minério antes e continua vendendo depois. Sobre o lucro pagava impostos antes e paga agora também, paga até sobre lucros das subsidiárias já tributadas no Exterior. O que muda é que a parcela de ... como se chama isso?... ah, dividendos são distribuídos de outra forma. Hoje paga bem mais porque hoje é mais lucrativa. Por sinal, o governo possui ações da Vale, os empregados também, a PREVI, idem, e pela venda o governo recebeu o valor correspondente ao fluxo de dividendos descontados...

– Companheira, a Vale vale dezenas de vezes mais hoje.
– Por ser melhor administrada – arriscou o debatedor situado à direita de Lucy.  Faltou dizer como Epicuro que nada nasce do nada. Ou como emendou o Barão de Itararé: De onde menos se espera, daí é que não sai nada. 
– Mas foi a preço de banana...
– Gostaria de provar uma banana – exclamou Lucy. Antes, umas perguntas: Disseram que um dos consórcios  – o que perdeu – era liderado por Antonio Ermírio de Morais, descrito por todos como um empresário de altíssima qualidade. Se o preço de venda era tão baixo, por qual razão ele não ofereceu mais? Outra pergunta: Na conta Povo Brasileiro e/ou, agora, entra mais ou menos dinheiro? Pergunto, apesar de conhecer a resposta.

– E/ou... pois é. O problema é aquilo que vai para esse tal de ou. São aqueles inúmeros ralos...Na privatização...
– Privataria...
– A privatização acabou com um monte de funcionários dependurados nas tetas... Em parte isso acabou. Não foi fácil. Um exército que não souber utilizar todas as armas e as formas de luta de que possa dispor o oponente teria um comportamento insensato...

– Filosofia de elite reacionária, isso deve ter sido dito por um membro da Zelite, um burguês tacanho.
– Foi sim. Quem disse chamava-se Vladimir Ulianov, Lênin para não deixar dúvidas.
– Nossos comerciais, por favor. – o moderador quis se fazer notar. 
Depois de informar os prodígios dos quais é capaz um mero desodorante, os anunciantes bateram em retirada.

– E agora, esse processo continua – Lucy mal reprimiu um bocejo.
– Não, companheira, agora temos concessões.
– É a mesma coisa!
– Diz um professor que já foi czar da Economia que se trata apenas de um debate semântico – Lucy apanhou um jornal e mergulhou no desafio de um Sudoku.

– Companheira, os consórcios vencedores pagaram mais de quatro vezes o valo mínimo...
–  Dona Lucy, por favor, preste atenção. Não posso ser claro se você (desculpe a familiaridade) não estiver atenta, como já dizia Rousseau. Falemos dos consórcios. Quem são os entendidos de fora que participam desses consórcios? O dono de um clube de aeromodelismo, um...

– Momento – Lucy desistiu daquele joguinho enjoado – a Infraero terá 49% das ações dessas novas estruturas. Se o dinheiro provém em grande parte do BNDES e de fundos de pensão de estatais...
– Companheira, os fundos de pensão vislumbraram uma excelente oportunidade de negócios...
– Deixe-me concluir – impacientou-se Lucy – se esse dinheiro foi mobilizado de maneira tão abundante, por que não foi colocado à disposição da Infraero?
– Nossos comerciais, por favor!
Por: Colunista Alexandre Salomon, 

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